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"Nasci pela Ingazeiras/ Criado no ôco do mundo./ Meus sonhos descendo ladeiras,/ Varando cancelas,/Abrindo porteiras./ Sem ter o espanto da morte/ Nem do ronco do trovão,/ O sul, a sorte, a estrada me seduz./ É ouro, é pó, é ouro em pó que reluz/ É ouro em pó, é ouro em pó./ É ouro em pó que reluz:/ O sul, a sorte, a estrada me seduz"

- Ednardo



sábado, 18 de fevereiro de 2012

carnavalesco

lá pelo meio de fevereiro
ferve um fogo que fere o negro
na falta de doses de frevo.

em cidades distantes,
num tempo pralém de tanto
entre depois e antes,
queimando a rua no canto –
cada cabra com seu santo,
cada bloco com seu manto.

as rosas ainda bailam no mar
e o fogo tem muito para rodar:

por quantos segundos
eu quero a tua mão e um vão,
limão, calção, canção, ilusão.

eu quero a alegria de quem acha,
eu quero a emoção de quem perde,
achas de graça, cachaça, praça,
raça, caça, massa, passa.

eu quero a doçura de uma ladeira
com mil casarões na beira,
eu quero o bolo de suor e sol,
e sal, e céu, e teu, e mel e só.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

somos uns artistas brasileiros

inútil fazer arrodeios,
sair girando feito perus entre “glu-glus”
e suas respectivas cloacas:
somos todos uns artistas brasileiros
ferrados, frustrados, sem dinheiro,
jogados em qualquer bueiro
ou cargo comissionado.

feito a mãe gritando pela casa
entre almoços, vasos e pontas de faca:
“menino, tu faz um arte”.
levamos à sério, não estávamos brincando,
ou estávamos – rimávamos –
e por isso caímos nessa:
em cima das cadeiras, do barro, da tinta.

(o adolescente se aproxima:
“mamãe, eu tenho algo para dizer...”
a mãe imagina os netos que não terá:
“diga, meu filho, tu não me ilude!”
e o rapaz, meio sem jeito:
“mamãe, é que sou ‘cult’...”)

por que não viver da arte?
a arte plebéia de estar entre homens e mulheres
cantando a vida que está e aquela que quiseres.
dar-se ao ofício de correr pernas pelos mundos,
fotografando o que há para ser feito,
cartografando paisagens invisíveis,
cavalgando luas, centopeias estelares
ou qualquer vida – quanta? – que pensares.

(desfazer, despensar:
concretar edifícios linguísticos hermeticamente fechados
por meio de esfinges de hermeneutas franceses
e aqueles dóceis pequenos burgueses
dos romances do século dezenove.
eu só quero uma poética
de qualquer ética achada nos mercados,
de qualquer frase ouvida nas ruas –
desescrever:
mandar pra baixa da égua
uns cabra véi com cara de nada
e uns besta posando de bacana
nuns livro do tempo que o cão era menino)

inútil negar e se trancar em escritórios,
oratórios e banheiros públicos:
somos todos uns artistas brasileiros
sem verba, duros.

quantos livros não foram lidos,
quantos poemas se perderam entre um ofício,
um misto quente de sensações, seios
e propaganda de veículos!
folículos capilares, planos
seres planares ou qualquer coisa que tu
planejares, ares novos, fogos nas narinas,
meninas seminuas na beira de riachos e rimas,
gargalhadas, marmeladas, amadas, nadas...

eu só posso ser tantos:
meus irmãos me multiplicam,
os bem-te-vis me voam,
as tilápias me nadam,
os manoéis me barros.

artistas lascados de todo o Brasil –
cada cerrado e serra,
cada prado e pantanal,
cada sertão e grão seco de terra,
cada floresta, fresta de mar ou rio –,
eu digo, companheiros,
uni-vos.

uma piada, ou ainda: para a história inglória de alguns “amores”

coice de sonhos:
a dor é doce
e mancha o corpo
com um mel sem fim

pelos meus pés,
já passaram três gerações
de formigas.
nas caldeiras do peito,
preparei litros e litros
de chocolate

nas abas do panamá,
caíram açúcares de mil invernos.
andando pelos lábios,
o sorriso de um padeiro feliz;
mas foste tu, tu és
a doceira da minha agonia,
afrodite semeando diabetes,
vênus da obesidade alheia

(mas há os que perceberão -
entre as juras de amor,
que vez por outra cem,
e tantas compotas reservadas -
a presença discreta de
litros por cima de litros
de algum ácido escondido
nos teus olhares e gemidos)