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"Nasci pela Ingazeiras/ Criado no ôco do mundo./ Meus sonhos descendo ladeiras,/ Varando cancelas,/Abrindo porteiras./ Sem ter o espanto da morte/ Nem do ronco do trovão,/ O sul, a sorte, a estrada me seduz./ É ouro, é pó, é ouro em pó que reluz/ É ouro em pó, é ouro em pó./ É ouro em pó que reluz:/ O sul, a sorte, a estrada me seduz"

- Ednardo



quinta-feira, 28 de julho de 2011

prólogo para um poema não escrito

eu venho sentindo um poema
como quem masca ritualmente a coca.
cada folha é uma metáfora
trazendo consigo um verso,
outra folha:
as palavras rodam
no canto da boca.

eu venho balbuciando intenções
que minha língua dorme e nem tenta.
eu venho mastigando o poema sem dor
desde que me surgiu em sonho.

o seu sumo feito de mistério e torpor
corre magro pela garganta,
se esgueira nos rins,
murmura pelas veias
desse corpo-fogo que canta.

o poema vem aos poucos
se fazendo entre cafés, leituras, fotografias e cigarros.
e eu não tenho pressa. eu só tenho a vontade
e três imagens de mil palavras em folhas cada:
i. a fauna e um fauno,
ii. a flora e tuas corolas
iii. e uma covarde blusa branca sobre teu corpo que corre e me ri.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

três palavras num poema à noite

eu gostaria de dizer três palavras num poema à noite.

(1) o poema em questão se entitula
“três palavras num poema à noite”;
(2) esqueci o que deveria pôr no segundo ponto
e, por não ter o que dizer,
escrevi uma piscadala
no canto do verso (;
(3) os poemas voltaram fazendo carreira,
caminhão comendo a beira,
colher no canto da sopa.

vieram:
e quem tiver olhos, que ouça.

quinta-feira, 10 de março de 2011

alegria do cronópio

"As esperanças, sedentárias, deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens, e são como as estátuas, que é preciso [ir] vê-las, porque elas não vêm até nós"
(Julio Cortázar, "Viagens". In: "Histórias de cronópios e de famas")

"[...] a carne pouca na terra ancha/ espera,/ esperancha"
(Jorge Luan, "são as bordas")


Eu espero,
Gentilmente espero,
Que a esperança não canse de mim.

Também espero
Que me fuja
Para que possa desencontrá-la
E perdê-la sem saber que exista –
Para, então,
Existi-la sem lembrar que sou
Mesmo se não vista.

Eu espero,
Junto às conchas e às ondas,
Que a esperança não canse de mim
E que me venha
Como um raio sem nuvens, sem céu,
Sem chão.

Espero –
Não sem dor,
Não sem ter lutado –
E penso até
Que a sua chegada
É mais
Que o mais que ela anuncia.

domingo, 30 de janeiro de 2011

pequena história das duas décadas - VII

subíamos os pés de siriguela
não pelas frutas,
mas pelo prazer aéreo
de subir

tocávamos campainhas
quando não tínhamos motivo
para correr. e corríamos
sem sorrir para trás,
mas para o mundo
que nos esperava na esquina

nuvens de cabelos
rios quando chovia
cicatrizes da guerra em paz
bola nas ruas
pés no muro branco
cavar trincheiras nos quintais
monstros imaginários
pistolas de pressão
ondas tantas de pular
sobremesa escondido
fantasmas nas ruínas
papagaios nas gaiolas
cavalete feito com bananeiras
poesia nas perguntas
baladeiras e bornós
cachoeiras de suor
em que escorria o tempo
para hoje banhar-me

ao fechar os olhos
e soltar os ouvidos

quando os joelhos de duas décadas
sobem ladeiras
quando corto o cabelo
no mesmo lugar
quando diviso pipas
que meu peito não guia
quando me vejo nos tantos espelhos
mundo à fora,
e eu dentro de cada um deles
sendo diverso do que fui,

mas ainda um menino do Brasil
sofrendo outros castigos,
correndo outros caminhos,
descendo outras ladeiras
do mesmo coração de poeta,
que, encantado,
sorri

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

lírico

à memória de Luiz Claudio

Ontem, morreu um maldito.
E se morreu porque viveu,
“Maldito” era por ter vivido
Em demasia, aos pulos, em poesia.

Ontem, morreu um maldito,
E maldito era por saber
Que a vida é mais que o menos
A que se vê reduzida
Nas sarjetas, nas fazendas, nos guetos,
nas ruas em que se vendem os homens
publicamente.

Ontem morreu um maldito,
Morreu um velho coração anarquista,
Mas não morreu o vermelho que bombeou
Num mundo sem sal, sem cor, sem fé
Que pode ser outro mundo.

Morreu, ontem, um vagabundo
Que debochava dos hipócritas
Ao mostrar o que escondiam,
por vergonha, ou por convenção,
Atrás dos próprios olhos.

Morreu, ontem, um vagabundo
Cuja metodologia era o whisky
E os óculos escuros,
Mas também as pichações nos muros.

Morreu, ontem, talvez,
O último dos líricos (não confesso)
Num mundo sem lirismo,
O último dos profetas
Num mundo onde o futuro
É repetição,
O último dos revolucionários
Num mundo sem revolução.

Mas morreu ontem, também,
O mentor de um sem número
De jovens curiosos, mendigos.

Em cada noite nos bares,
Em cada tarde ouvindo Chico Buarque,
Em cada derrota no tabuleiro,
Em cada pf no Garça,
Em cada compra com vales,
Em cada discussão literária,
Em cada aula nas salas de educação bancária,
O que nos ensinava não era,
Justamente,
A plantar sobre o concreto?
A alçar vôo com os tênis?
A criticar os críticos?

O que soube mesmo
Foi incomodar:
Mosca na sopa,
Pedra no sapato,
Ode ao burguês.

Mas se também nos ensinou,
Entre piadas e gritos,
A ser irresponsavelmente líricos,
A profetizar o futuro no passado,
A revolucionar-se uma vez por segundo,
Não ouso mais dizer que morreu:
Cerraram-se as pálpebras
Para abrir-se o livro da História.

Hoje,
Entre filetes de ouro esverdeado
E bordas vermelhas nas linhas,
Vejo um dedo da sua cotidiana ironia
Em cada verso que concebo.

E se, agora, não sei terminar esse poema
É porque o mestre que viveu ontem
Não quer que ele finde,
Não quer que findemos
Até que o mundo faça do lirismo –
Do doce lirismo da igualdade –
A matéria cotidiana dos abraços, do trabalho
E do copo de whisky sobre a mesa.


numa madrugada de janeiro ouvindo Piazzolla.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

sobre as asas à noite




eu lanço palavras no ouvido da noite
e ela responde em vento, nuvens e som;
responde em palavras alheias
que me aparecem juntas.

travamos um diálogo
e apostamos a vida um do outro
como em jogo de meninos.
bêbados, juramos que o mar
seria nossa derradeira garrafa
se perdêssemos.

guardamos três passos de distância,
guardamos um riso triste no canto
da boca
e nos olhamos no silêncio das ondas –
há qualquer coisa que não entendemos.

madrugada,
quantas vezes beijei teus lábios,
quantas vezes caminhei
embriagado dos teus perfumes:
o jardim no escuro,
a chuva no asfalto,
os becos do amor secreto,
o rugido da maré,
os gritos na delegacia,
a fé

e um tal Bob Dylan
declamando os direitos civis
no meu cd player.
só quero esse mesmo direito, mamma:
cantar as asas dos homens.

e você sabe que é difícil
cantar tão alto
quando a vida
puxa tão baixo.

mas eu sei, pela poesia,
imaginar quatro cordas
em cima da pouca altitude
a que me trouxe a vida .

você se ri do artifício, oh , sister,
e perde lindamente a aposta,
pois não sabe como fiz uma palavra
florescer da imundície de outra.

afogas a boca no
mar,
e é como se, aos poucos,
nascesse uma manhã.

bato a areia das roupas,
bato a testa na luz do dia
e acendo um cigarro nela
enquanto sorrio um gole...
sou um bêbado calmo
praia acima,
pois sei
não haver sol que queime
as asas que os homens aprenderam
na noite que existe
em cada olhar seco,
em cada sorriso amarelo,
em cada flanelinha baleado,
em cada homossexual violado,
em cada filho morto pelos policiais,
em cada negro sentado no fim do ônibus,
em cada noite.

sou um bêbado (im)paciente rua acima
e sei não haver sol que queime
asas rabiscadas entre fogo e sangue
para pisar o céu logo depois de
varrer o chão.


João Pessoa – Dezembro de 2010
Acopiara – Janeiro de 2011

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

viagem pitoresca do brasil




escrito sob a luz de João Cabral de Melo Neto, Chico Science, Ferreira Gullar e Descartes Gadelha (pintor da obra exposta,"Estudo para 'Guerra diariamente'")


irmão, irmã,
eu entrego Severino
que veio da Serra
da, sua própria, Costela
roendo-a em versos
até o Capiberibe.

eu te entrego Severino,
brasil,
que caiu no mangue
e matou sua fome com
o caranguejo da sua
migração.

mas eu também levo
a criança que saltou
dentro da vida
para pular mais tarde
dentro da rede,
irmão das almas.

eu levo,
ah, isso eu levo,
o oráculo das ciganas:
levo o Aratu
mas também o Gabiru
levo um Vira-lata
primo raso do Urubu
levo um Chié
mas também um Carcará –
a sombra que te cobria,
Severino de Maria.

eu te levo pela mão,
ó, pátria amada,
e lavo as bordas do que digo
com parte da fome de lixo
dos cristos do Jangurussu.

eu te apresento,
Terra adorada,
entre outros mil
o João Batista do lixão
lavando as testas dos crentes
com a fumaça do Jordão.

eu te apresento,
lindo pendão da esperança,
Moisés indo ao Sinai
trazer um peixe do seu cume
para fritá-lo no chorume –
recebe o háfeto.

peço que conceda,
mãe gentil,
qualquer rosa que haja
ao corpo dessa menina:
talvez o seu perfume
esconda a cadaverina.

eu te trago pela mão,
idolatrada,
até o cego Caronte
que nos levará de canoa
pelas margens plácidas
do Anil-vinagre de gullar –
um rio que vai dar,
não pela geografia,
na Lagoa do Gengibre.

como sei que estás calçado,
impávido colosso,
não te prevenirei
dos bichos fiéis
que das crianças
vão comendo os pés.

o barqueiro pede pressa,
pois o tempo muda
e quando vierem as chuvas
os corpos daquelas casas
alimentarão o Anil,
engrossarão o vinagre
que ferve podre no rio.

brilhou no seu da pátria,
um riso limpo macho e branco,
nesse instante.
florão da américa,
penhor da igualdade,
berço esplêndido –
crime que não cometi.

dos filhos deste solo
és mãe ardil,
pátria amarga
e vil.


esse poema não seria possível sem a ajuda, não intencional, de José Carlos Emídio e Noëlie Merlet

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

avenida cabo branco

de quem viu mais que o mar no mar


não é preciso muito
para tocar com o dedo
essa matéria singela.

mas há que ter um choro
e deixar que os pássaros
voem naturalmente no peito
até perder-se a sua voz
na nossa.

é preciso descer à praia
e banhar os pés na areia,
lavar o rosto nesse vento,
que é o outro nome para
o cheiro das ondas que arrebentam
nos meus braços.

noite sobre os coqueiros,
mas que não seja espessa,
que não seja mais espessa
que a matéria do coração –
o coração de menino
forjado no suor
das ladeiras do Brasil.

da sorte de coisas simples,
há o amor que ser
sensível aos dedos
e pulsar quente
como um segundo núcleo da Terra.
há o amor que ser teu,
querida,
mas há também que mudar
os frutos de mãos
para que doce na voz
de quem faltou,
para que árvore
nos dedos de quem cantou.

não é preciso muito
para tocar com os olhos
essa matéria singela.

é por isso que guardo -
com o punho cerrado
e o peito aberto
às baleias,
às conchas,
aos peixes -
uma sorte de coisas simples
que nascerá já ontem
do ainda não
que hora estoura com as ondas
e um violoncelo
na avenida cabo branco.

um artigo francês

nada causa mais frustração ao poeta brasileiro que
"o mar", "o mar", "o mar", "o mar"...

"La mer" c'est trop meilleur

domingo, 28 de novembro de 2010

o verso

"[...] é o homem/ o pequeninho ser que treme,/ cai e levanta/ a fronte mais ferida/ e com o braço recém-arranhado/ empunha os relâmpagos"
(Pablo Neruda)


um dia,
no auge de toda poesia,
hei de atirar um verso,
não o sei ao certo,
contra o céu da boca –
ele trará os cheiros da terra
e um rastro verde de inverno.

nesse dia,
o verso sangrará outros –
estrelas incandescentes –
pelo buraco gravado no teto .

um dia,
com tudo o que queria,
hei de trançar esse verso,
o que não sei ao certo,
até fazê-lo em forca.

nesse dia,
ficarão as marcas na minha garganta
de todo o mel e a neblina
que dela fugiram em canto.

um dia,
no cume de toda agonia,
hei de jogar esse verso,
e o seguirei de perto,
do alto de uma torre.

nesse dia,
cantará o verso sobre o chão
até fazer-se poema no trigo
de todos os pães sobre as mesas.

um dia.