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"Nasci pela Ingazeiras/ Criado no ôco do mundo./ Meus sonhos descendo ladeiras,/ Varando cancelas,/Abrindo porteiras./ Sem ter o espanto da morte/ Nem do ronco do trovão,/ O sul, a sorte, a estrada me seduz./ É ouro, é pó, é ouro em pó que reluz/ É ouro em pó, é ouro em pó./ É ouro em pó que reluz:/ O sul, a sorte, a estrada me seduz"

- Ednardo



terça-feira, 24 de julho de 2012

outra fantasia


há um tempo
que é tempo o bastante
para saber quaisquer coisas
sobre a tua ausência –
essa que quanto mais ela
mais se assemelha
a tua presença.

sei que não morro, nem nada.
passo bem, vivo,
peço fogo a desconhecidos:
paro no sinal.
como três vezes ao dia,
no mínimo.

às vezes, balanço o oceano
e animo as ondas.
ainda acendo o sol com o pouco
fogo de um isqueiro.
picho poemas etéreos no concreto
muro do parlamento.

sem o que é teu –                                                        
vapor de lábios
em meu ouvido,
olhar que se dissolve
em pálpebras,
fantasia de oboés                               
sobre o lençol –
passo quase impune:

a poesia me entrega
sem saber
se me recebes.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

amanha-ser


poema é máquina de fazer doido,
é relógio de distâncias:
quilômetros dentro de milímetros

um poema, o perfume de canela,
é uma fábrica de amanha-seres
e afronta o breu que o erige

não pode ser lago, não quer ser pedra:
lançar-se, fluir em ondas,
sob teus dedos

e caminhar sobre águas
que nem choveram

domingo, 8 de julho de 2012

prometeu III

(em) matéria do desejo que te guardo,
é melhor nem dizer,
trazer comigo. pôr do sol
com olhos fechados.
não ver, negar três vezes –
não dar espaço para sorrisos,
não revelar quantas linhas
são tuas.

matéria do desejo que te guardo:
às vezes, é melhor dar gosto
ao diabo.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

prometeu II

é você quem foge,
também quem me fez
prometeu
e quem depois
devolveu
o fogo
na própria fuga.

são teus o perfume,
a risada,
o suor –
mas tens certeza
de quem és?
quem garante,
de pés juntos,
que estas linhas
te pertencem,
e não a outra?

de lápis e sorriso,
pensei uma vingança:
essa flecha da dúvida
que meu poema lança.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

prometeu I

"everyone's got their chains to break holdin' you"

cidade enevoada:
nem a lua se achou.
perfume de passos,
explosões de risos,
sal da pele
em qual esquina?

nem um palmo à minha frente.
trilhos, ruínas.

teus olhos arriscam um fósforo.

(em) matéria do desejo como fogo,
sou um feliz punhado
de cinzas.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

a oração da crise

aço nosso que estás mais adiante,
metalizado seja o vosso nome,
[milhões de desempregados no mundo]
venha a nós teu corpo montado.
seja feita a vontade do patrão
[deputados tem o salário aumentado]
assim na fábrica como na rua.
o pão nosso de cada dia nos dai hoje,
[governo manda milhões aos bancos]
assim como damos nosso suor vendido
a quem nos tem ofendido.
[sindicatos dizem não poder fazer nada]
não nos deixeis cair em desemprego,
mas, por via das dúvidas, livrai-nos da polícia.

amém.


(séculoXXIpoemas, trecho do poema IX)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

a física das flores

se eu tivesse flores,
não as daria à ninguém.
também não daria canções,
antigas cartas,
âncoras, arpões,
odisséias, sertões
volumes de ulisses,
poemas sem dedicatória –
o que me pedisses

se eu tivesse flores,
seriam flores em preto e branco,
como as fotografias,
a economia dos bancos,
a cabeleira das tempestades,
um velho ipê,
a inércia das tardes,
tudo que vê
ou que é visto

terminaria nisto:
nada de entregas e saudades,
ou beijos e vasos e amar-ses,
as flores se dobram à cinza
gravidade.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

uma reta

para bia, que eu (des)conhecia


é possível que haja
uma reta entre os dois -
a sombra do touro
nos olhos do toureiro

mas há tantos outros
no entre
entre os corpos:
portas entreabertas,
poeira de vendavais,
dribles e capas,
espadas e abraços,
achados e perdidos
e reencontros, e passos
passados ao acaso

eu avanço, touro,
ou cresço, fogo,
nos olhos que (quão?)
me veem?

segunda-feira, 21 de maio de 2012

linhas de fuga

ânsias de explosão
desejos de fuga
ou tua presença
que a distância suga

terça-feira, 15 de maio de 2012

a criação

“A terra estava sem forma e vazia;
As trevas cobriam o abismo
E um vento impetuoso soprava sobre as águas”
Gn 1,2


teu corpo estava sem forma e vazio
das minhas mãos.
tua pele esperava o momento
em que as sementes cantariam.
e foi dito:
cada poro teu será a casa
de um dedo meu;
cada milímetro do teu corpo –
e dentro dele, o infinito –
será fecundado pelo verbo.

e eu pus minhas mãos na tua pele,
sussurei entre teus pelos.
houve um suspiro e uma vontade:
foi a primeira vez.

que haja vida em cada curva,
flores sob a colina dos teus seios
e uma relva macia nas tuas coxas.
e que a vida, insaciável,
se beba do suor dos corpos.
houve um gemido e um nascimento:
foi a segunda vez.

vendo que a vida era muita,
chamei aos frutos de “desejo”
e à colheita de “sexo”.
abençoei a ambos e dei ao lavrador
os seus próprios lábios e a língua
para percorrer a terra do corpo.
houve um silêncio e um sorriso:
foi a terceira vez.

como era farta a colheita,
ao lado de cada olho teu
construí um moinho,
dei a cada um o nome de “ouvido”;
sob teu nariz,
nomeei a visão do paraíso
de “tua boca”, porque tua,
e desenhei nela uma larga mesa.
nos moinhos, preparo o pão
dos desejos que me destes
para comê-lo entre mordidas e saliva.
houve um grito e as tuas unhas:
foi a quarta vez.

mas vendo que te pintei perfeita
e que teu corpo era
o princípio e o meio da criação para outrem,
criei as asas e lancei o céu sob elas,
beijei a ventania da “liberdade”.
para carregar o pão que concebemos,
inventei uma mochila às costas
seu nome passa a ser “lembrança”.
houve um entendimento e uma partida:
foi a quinta vez.

então eu disse: que façamos
um retorno para uma “lembrança”
e uma chegada para um êxodo.
que haja sempre os grãos
para quem tem fome,
que haja uma colheita
quando houver desejos.
e houve as bocas e o beijo:
foi a sexta vez.

na sétima vez,
permiti que você e eu
colhêssemos e partíssimos
quando bem quiséssemos.
nessa vez, chamei tudo
o que havíamos inventado de
a criação.

e foi assim
que o espírito dos meus versos
passou a caminhar sobre o teu corpo.