“A terra estava sem forma e vazia;
As trevas cobriam o abismo
E um vento impetuoso soprava sobre as águas”
Gn 1,2
teu corpo estava sem forma e vazio
das minhas mãos.
tua pele esperava o momento
em que as sementes cantariam.
e foi dito:
cada poro teu será a casa
de um dedo meu;
cada milímetro do teu corpo –
e dentro dele, o infinito –
será fecundado pelo verbo.
e eu pus minhas mãos na tua pele,
sussurei entre teus pelos.
houve um suspiro e uma vontade:
foi a primeira vez.
que haja vida em cada curva,
flores sob a colina dos teus seios
e uma relva macia nas tuas coxas.
e que a vida, insaciável,
se beba do suor dos corpos.
houve um gemido e um nascimento:
foi a segunda vez.
vendo que a vida era muita,
chamei aos frutos de “desejo”
e à colheita de “sexo”.
abençoei a ambos e dei ao lavrador
os seus próprios lábios e a língua
para percorrer a terra do corpo.
houve um silêncio e um sorriso:
foi a terceira vez.
como era farta a colheita,
ao lado de cada olho teu
construí um moinho,
dei a cada um o nome de “ouvido”;
sob teu nariz,
nomeei a visão do paraíso
de “tua boca”, porque tua,
e desenhei nela uma larga mesa.
nos moinhos, preparo o pão
dos desejos que me destes
para comê-lo entre mordidas e saliva.
houve um grito e as tuas unhas:
foi a quarta vez.
mas vendo que te pintei perfeita
e que teu corpo era
o princípio e o meio da criação para outrem,
criei as asas e lancei o céu sob elas,
beijei a ventania da “liberdade”.
para carregar o pão que concebemos,
inventei uma mochila às costas
seu nome passa a ser “lembrança”.
houve um entendimento e uma partida:
foi a quinta vez.
então eu disse: que façamos
um retorno para uma “lembrança”
e uma chegada para um êxodo.
que haja sempre os grãos
para quem tem fome,
que haja uma colheita
quando houver desejos.
e houve as bocas e o beijo:
foi a sexta vez.
na sétima vez,
permiti que você e eu
colhêssemos e partíssimos
quando bem quiséssemos.
nessa vez, chamei tudo
o que havíamos inventado de
a criação.
e foi assim
que o espírito dos meus versos
passou a caminhar sobre o teu corpo.
,
"Nasci pela Ingazeiras/ Criado no ôco do mundo./ Meus sonhos descendo ladeiras,/ Varando cancelas,/Abrindo porteiras./ Sem ter o espanto da morte/ Nem do ronco do trovão,/ O sul, a sorte, a estrada me seduz./ É ouro, é pó, é ouro em pó que reluz/ É ouro em pó, é ouro em pó./ É ouro em pó que reluz:/ O sul, a sorte, a estrada me seduz"
- Ednardo
- Ednardo
terça-feira, 15 de maio de 2012
sexta-feira, 27 de abril de 2012
fantasia
um rio de galhos derramados
sobre a água dos riachos,
correndo, se despedindo,
do cume do seio.
seixos e risos:
o rio passa,
seda verde
sobre o corpo.
deslizar-se, deixar-se cair
de ti,
dos teus cachos e coxas
com o estrondo
de uma pena azul
sobre um chão branco.
flautas e fagotes.
teus cabelos saltam da cama
sobre mim. sob as folhas,
um rosto que me vê
entre cílios e terra.
um céu de rios balançando
sob um dia nublado,
sorrindo, arvorecendo,
mistérios assim.
nº6
segunda-feira, 2 de abril de 2012
baralho
o jogo foi jogado, bela,
e não creio que velhas cartas
caiam das mãos das nuvens
para matar tua sede.
embaralhados os dois,
não sei a quantos reis e valetes
está a dama que procuro,
qual outra mão a ganha.
uma caminhada pelas ruas
e os prédios são copas,
as calçadas são espadas
e o ouro que me salva
foge numa esquina.
em jogo jogado, não se ganha,
se vencem os amores,
se vencem as lembranças,
mas não os amanhãs,
instantes de descuido.
e tomei a liberdade de,
em segredo,
mexer nas cartas do baralho,
guardadas entre fotos e poemas
numa gaveta qualquer.
eu lanço mão das palavras –
e não blefo em nenhuma –
esperando, calmamente esperando,
que você pague para ver.
e não creio que velhas cartas
caiam das mãos das nuvens
para matar tua sede.
embaralhados os dois,
não sei a quantos reis e valetes
está a dama que procuro,
qual outra mão a ganha.
uma caminhada pelas ruas
e os prédios são copas,
as calçadas são espadas
e o ouro que me salva
foge numa esquina.
em jogo jogado, não se ganha,
se vencem os amores,
se vencem as lembranças,
mas não os amanhãs,
instantes de descuido.
e tomei a liberdade de,
em segredo,
mexer nas cartas do baralho,
guardadas entre fotos e poemas
numa gaveta qualquer.
eu lanço mão das palavras –
e não blefo em nenhuma –
esperando, calmamente esperando,
que você pague para ver.
domingo, 18 de março de 2012
um sopro
um poema não precisa, necessariamente, ter compromisso com a verdade,
o poema só precisa,
e que a verdade não resista
sendo já a mentira de ainda a pouco
i
sei que há palavras por soprar
entre teus cabelos inalcançáveis.
sei que há versos que não foram ditos
sobre o caminho vermelho das tuas unhas.
sei, ainda, que estas não são
quaisquer palavras de algum amor;
sei, também, que aqui não se move
o frêmito doce da lembrança.
ou nem bem havia loiro,
ou nem bem havia dedos,
ou nem sei se havia sopro.
ou nem se passaram horas,
ou nem fugiram as estrelas,
ou nem há mesmo uma dúvida.
ou isso tudo é mentira,
ou isso tudo é bobagem.
ou é bem mais do que vejo:
isto – sem nome – é desejo?
ii
mas não pergunte o que o sopro leva consigo.
não tente, com os dedos, encontrar palavras sobre a nuca.
não produza mapas dos mundos inventados por tuas mãos.
o sopro é tão-somente a intenção do sopro,
e as palavras, talvez, sejam uma linguagem falida,
como falida é a falta delas.
as palavras são menos que a intenção das palavras.
o poema só precisa,
e que a verdade não resista
sendo já a mentira de ainda a pouco
i
sei que há palavras por soprar
entre teus cabelos inalcançáveis.
sei que há versos que não foram ditos
sobre o caminho vermelho das tuas unhas.
sei, ainda, que estas não são
quaisquer palavras de algum amor;
sei, também, que aqui não se move
o frêmito doce da lembrança.
ou nem bem havia loiro,
ou nem bem havia dedos,
ou nem sei se havia sopro.
ou nem se passaram horas,
ou nem fugiram as estrelas,
ou nem há mesmo uma dúvida.
ou isso tudo é mentira,
ou isso tudo é bobagem.
ou é bem mais do que vejo:
isto – sem nome – é desejo?
ii
mas não pergunte o que o sopro leva consigo.
não tente, com os dedos, encontrar palavras sobre a nuca.
não produza mapas dos mundos inventados por tuas mãos.
o sopro é tão-somente a intenção do sopro,
e as palavras, talvez, sejam uma linguagem falida,
como falida é a falta delas.
as palavras são menos que a intenção das palavras.
segunda-feira, 12 de março de 2012
pequena história das duas décadas – VIII
ou “esse exílio”
eu não sou eu.
eu mentiria se assim dissesse.
eu nunca poderia
apenas eu.
eu sou os que me multiplicam.
sou a rua onde vivi,
sou as ladeiras que corri,
sou as cercas que pulei
e até as dores que doeram:
sobretudo as que cantei.
não sou apenas estas duas marcas
nas encostas do nariz.
eu sou todos os óculos,
todos os rótulos,
que ficaram para trás:
cada perna quebrada,
a armação empenada,
cada milagre que bailou nas lentes,
nos olhos que a vida ainda guarda.
eu sou as linhas da minha casa,
e toda a tinta passada
que a umidade derrubou da parede,
mas não de mim.
eu sou o quintal que já teve grama.
foi ali, deitado naquela cama,
que versos e sonhos rodopiaram
primeiras, segundas, terceiras vezes...
e eu sou a descoberta do mundo,
esteja ele em qual esquina
estivermos.
mas só me interessa descobrir um mundo
que os homens tenham descoberto.
só me vale inventar um mundo
onde o leite e a luz sejam
as mais evidentes leis.
eu recolho a terra
e as folhas de hortelã.
guardo-as num frasco
mais uma vez.
ponho, outra vez,
os mundos na mochila, nas costas,
as costas nas asas do pau-de-arara.
tomo a tua mão
e a multiplico em pães, peixes e versos.
imitando aquele velho do filme,
eu laço aquilo que amo
com balões mil vezes coloridos
e tudo trago nos dedos, na pele,
na voz.
se voo ou se ando,
se improviso ou se plano,
não sei, não saberei.
cheirando à terra,
bêbado de perfume
sei que vou,
tantas vezes mais:
entre varedas,
eu me exilo
cantando.
eu não sou eu.
eu mentiria se assim dissesse.
eu nunca poderia
apenas eu.
eu sou os que me multiplicam.
sou a rua onde vivi,
sou as ladeiras que corri,
sou as cercas que pulei
e até as dores que doeram:
sobretudo as que cantei.
não sou apenas estas duas marcas
nas encostas do nariz.
eu sou todos os óculos,
todos os rótulos,
que ficaram para trás:
cada perna quebrada,
a armação empenada,
cada milagre que bailou nas lentes,
nos olhos que a vida ainda guarda.
eu sou as linhas da minha casa,
e toda a tinta passada
que a umidade derrubou da parede,
mas não de mim.
eu sou o quintal que já teve grama.
foi ali, deitado naquela cama,
que versos e sonhos rodopiaram
primeiras, segundas, terceiras vezes...
e eu sou a descoberta do mundo,
esteja ele em qual esquina
estivermos.
mas só me interessa descobrir um mundo
que os homens tenham descoberto.
só me vale inventar um mundo
onde o leite e a luz sejam
as mais evidentes leis.
eu recolho a terra
e as folhas de hortelã.
guardo-as num frasco
mais uma vez.
ponho, outra vez,
os mundos na mochila, nas costas,
as costas nas asas do pau-de-arara.
tomo a tua mão
e a multiplico em pães, peixes e versos.
imitando aquele velho do filme,
eu laço aquilo que amo
com balões mil vezes coloridos
e tudo trago nos dedos, na pele,
na voz.
se voo ou se ando,
se improviso ou se plano,
não sei, não saberei.
cheirando à terra,
bêbado de perfume
sei que vou,
tantas vezes mais:
entre varedas,
eu me exilo
cantando.
sexta-feira, 2 de março de 2012
toda poesia é estrada
comecei o blog com este poema (de 2009) e achei que deveria repeti-lo agora, nas vésperas de torná-lo carne mais uma vez.
eu parto a mim
mesmo
ao partir.
metade do corpo
num século
metade
n’outro
minha alma pela cordilheira:
um pacífico de frio,
uma américa de sangue.
eu recolho a terra,
guardo num frasco.
misturo com alguns cravos
e cascas de romã,
junto com o hálito do vento,
vento da voz dos teus cabelos,
amiga.
guardo minha essência.
jogo o mundo nas costas e
as costas na carroceria –
em caminhos e caminhões
galopo no dorso
do tempo.
corre, meu mundo,
que meu sonho é minha sela
e na casa dos meus amigos
há água!
anda, velho parceiro,
caminha sempre ao meu lado.
casa tuas mulheres fortes
com meus poemas frágeis.
no meu exílio,
não cabe choro, nem vela,
cabem fitas amarelas,
cabem nerudas na mochila,
cabem piazzollas nos ouvidos,
taças de vinho na língua.
cabe a lembrança de ter vivido
e de viver ainda.
cabe o fardo de saber-se humano
e ter compromisso com a primavera eterna
primavera porteña
depois de uma vida invernal
e do fado de saber-se brasileiro.
no meu exílio,
exilado mas residente,
cabe o beijo
de descobrir-se conterrâneo
de cada pessoa
em cada canto.
entre veredas,
eu me exilo
cantando.
(do "SéculoXXIpoemas")
eu parto a mim
mesmo
ao partir.
metade do corpo
num século
metade
n’outro
minha alma pela cordilheira:
um pacífico de frio,
uma américa de sangue.
eu recolho a terra,
guardo num frasco.
misturo com alguns cravos
e cascas de romã,
junto com o hálito do vento,
vento da voz dos teus cabelos,
amiga.
guardo minha essência.
jogo o mundo nas costas e
as costas na carroceria –
em caminhos e caminhões
galopo no dorso
do tempo.
corre, meu mundo,
que meu sonho é minha sela
e na casa dos meus amigos
há água!
anda, velho parceiro,
caminha sempre ao meu lado.
casa tuas mulheres fortes
com meus poemas frágeis.
no meu exílio,
não cabe choro, nem vela,
cabem fitas amarelas,
cabem nerudas na mochila,
cabem piazzollas nos ouvidos,
taças de vinho na língua.
cabe a lembrança de ter vivido
e de viver ainda.
cabe o fardo de saber-se humano
e ter compromisso com a primavera eterna
primavera porteña
depois de uma vida invernal
e do fado de saber-se brasileiro.
no meu exílio,
exilado mas residente,
cabe o beijo
de descobrir-se conterrâneo
de cada pessoa
em cada canto.
entre veredas,
eu me exilo
cantando.
(do "SéculoXXIpoemas")
sábado, 18 de fevereiro de 2012
carnavalesco
lá pelo meio de fevereiro
ferve um fogo que fere o negro
na falta de doses de frevo.
em cidades distantes,
num tempo pralém de tanto
entre depois e antes,
queimando a rua no canto –
cada cabra com seu santo,
cada bloco com seu manto.
as rosas ainda bailam no mar
e o fogo tem muito para rodar:
por quantos segundos
eu quero a tua mão e um vão,
limão, calção, canção, ilusão.
eu quero a alegria de quem acha,
eu quero a emoção de quem perde,
achas de graça, cachaça, praça,
raça, caça, massa, passa.
eu quero a doçura de uma ladeira
com mil casarões na beira,
eu quero o bolo de suor e sol,
e sal, e céu, e teu, e mel e só.
ferve um fogo que fere o negro
na falta de doses de frevo.
em cidades distantes,
num tempo pralém de tanto
entre depois e antes,
queimando a rua no canto –
cada cabra com seu santo,
cada bloco com seu manto.
as rosas ainda bailam no mar
e o fogo tem muito para rodar:
por quantos segundos
eu quero a tua mão e um vão,
limão, calção, canção, ilusão.
eu quero a alegria de quem acha,
eu quero a emoção de quem perde,
achas de graça, cachaça, praça,
raça, caça, massa, passa.
eu quero a doçura de uma ladeira
com mil casarões na beira,
eu quero o bolo de suor e sol,
e sal, e céu, e teu, e mel e só.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
somos uns artistas brasileiros
inútil fazer arrodeios,
sair girando feito perus entre “glu-glus”
e suas respectivas cloacas:
somos todos uns artistas brasileiros
ferrados, frustrados, sem dinheiro,
jogados em qualquer bueiro
ou cargo comissionado.
feito a mãe gritando pela casa
entre almoços, vasos e pontas de faca:
“menino, tu faz um arte”.
levamos à sério, não estávamos brincando,
ou estávamos – rimávamos –
e por isso caímos nessa:
em cima das cadeiras, do barro, da tinta.
(o adolescente se aproxima:
“mamãe, eu tenho algo para dizer...”
a mãe imagina os netos que não terá:
“diga, meu filho, tu não me ilude!”
e o rapaz, meio sem jeito:
“mamãe, é que sou ‘cult’...”)
por que não viver da arte?
a arte plebéia de estar entre homens e mulheres
cantando a vida que está e aquela que quiseres.
dar-se ao ofício de correr pernas pelos mundos,
fotografando o que há para ser feito,
cartografando paisagens invisíveis,
cavalgando luas, centopeias estelares
ou qualquer vida – quanta? – que pensares.
(desfazer, despensar:
concretar edifícios linguísticos hermeticamente fechados
por meio de esfinges de hermeneutas franceses
e aqueles dóceis pequenos burgueses
dos romances do século dezenove.
eu só quero uma poética
de qualquer ética achada nos mercados,
de qualquer frase ouvida nas ruas –
desescrever:
mandar pra baixa da égua
uns cabra véi com cara de nada
e uns besta posando de bacana
nuns livro do tempo que o cão era menino)
inútil negar e se trancar em escritórios,
oratórios e banheiros públicos:
somos todos uns artistas brasileiros
sem verba, duros.
quantos livros não foram lidos,
quantos poemas se perderam entre um ofício,
um misto quente de sensações, seios
e propaganda de veículos!
folículos capilares, planos
seres planares ou qualquer coisa que tu
planejares, ares novos, fogos nas narinas,
meninas seminuas na beira de riachos e rimas,
gargalhadas, marmeladas, amadas, nadas...
eu só posso ser tantos:
meus irmãos me multiplicam,
os bem-te-vis me voam,
as tilápias me nadam,
os manoéis me barros.
artistas lascados de todo o Brasil –
cada cerrado e serra,
cada prado e pantanal,
cada sertão e grão seco de terra,
cada floresta, fresta de mar ou rio –,
eu digo, companheiros,
uni-vos.
sair girando feito perus entre “glu-glus”
e suas respectivas cloacas:
somos todos uns artistas brasileiros
ferrados, frustrados, sem dinheiro,
jogados em qualquer bueiro
ou cargo comissionado.
feito a mãe gritando pela casa
entre almoços, vasos e pontas de faca:
“menino, tu faz um arte”.
levamos à sério, não estávamos brincando,
ou estávamos – rimávamos –
e por isso caímos nessa:
em cima das cadeiras, do barro, da tinta.
(o adolescente se aproxima:
“mamãe, eu tenho algo para dizer...”
a mãe imagina os netos que não terá:
“diga, meu filho, tu não me ilude!”
e o rapaz, meio sem jeito:
“mamãe, é que sou ‘cult’...”)
por que não viver da arte?
a arte plebéia de estar entre homens e mulheres
cantando a vida que está e aquela que quiseres.
dar-se ao ofício de correr pernas pelos mundos,
fotografando o que há para ser feito,
cartografando paisagens invisíveis,
cavalgando luas, centopeias estelares
ou qualquer vida – quanta? – que pensares.
(desfazer, despensar:
concretar edifícios linguísticos hermeticamente fechados
por meio de esfinges de hermeneutas franceses
e aqueles dóceis pequenos burgueses
dos romances do século dezenove.
eu só quero uma poética
de qualquer ética achada nos mercados,
de qualquer frase ouvida nas ruas –
desescrever:
mandar pra baixa da égua
uns cabra véi com cara de nada
e uns besta posando de bacana
nuns livro do tempo que o cão era menino)
inútil negar e se trancar em escritórios,
oratórios e banheiros públicos:
somos todos uns artistas brasileiros
sem verba, duros.
quantos livros não foram lidos,
quantos poemas se perderam entre um ofício,
um misto quente de sensações, seios
e propaganda de veículos!
folículos capilares, planos
seres planares ou qualquer coisa que tu
planejares, ares novos, fogos nas narinas,
meninas seminuas na beira de riachos e rimas,
gargalhadas, marmeladas, amadas, nadas...
eu só posso ser tantos:
meus irmãos me multiplicam,
os bem-te-vis me voam,
as tilápias me nadam,
os manoéis me barros.
artistas lascados de todo o Brasil –
cada cerrado e serra,
cada prado e pantanal,
cada sertão e grão seco de terra,
cada floresta, fresta de mar ou rio –,
eu digo, companheiros,
uni-vos.
uma piada, ou ainda: para a história inglória de alguns “amores”
coice de sonhos:
a dor é doce
e mancha o corpo
com um mel sem fim
pelos meus pés,
já passaram três gerações
de formigas.
nas caldeiras do peito,
preparei litros e litros
de chocolate
nas abas do panamá,
caíram açúcares de mil invernos.
andando pelos lábios,
o sorriso de um padeiro feliz;
mas foste tu, tu és
a doceira da minha agonia,
afrodite semeando diabetes,
vênus da obesidade alheia
(mas há os que perceberão -
entre as juras de amor,
que vez por outra cem,
e tantas compotas reservadas -
a presença discreta de
litros por cima de litros
de algum ácido escondido
nos teus olhares e gemidos)
a dor é doce
e mancha o corpo
com um mel sem fim
pelos meus pés,
já passaram três gerações
de formigas.
nas caldeiras do peito,
preparei litros e litros
de chocolate
nas abas do panamá,
caíram açúcares de mil invernos.
andando pelos lábios,
o sorriso de um padeiro feliz;
mas foste tu, tu és
a doceira da minha agonia,
afrodite semeando diabetes,
vênus da obesidade alheia
(mas há os que perceberão -
entre as juras de amor,
que vez por outra cem,
e tantas compotas reservadas -
a presença discreta de
litros por cima de litros
de algum ácido escondido
nos teus olhares e gemidos)
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
"Ah, meu amor, eu só quero avoar..."
"poesia é voar fora da asa."
-Manoel de Barros
sê invisível como o toco debaixo da água,
sê invisível como a saudade dentro do peito,
sê invisível como o escorpião sob a pedra
passe como o silêncio em dias de som,
fuja no piscar dos olhos,
surja no apagar das luzes,
sê duro como o ferro numa fundição
sê como nenhuma palavra em toda a linguagem,
sê como coisa alguma em alguma coisa.
"poesia é voar fora da asa."
-Manoel de Barros
sê invisível como o toco debaixo da água,
sê invisível como a saudade dentro do peito,
sê invisível como o escorpião sob a pedra
passe como o silêncio em dias de som,
fuja no piscar dos olhos,
surja no apagar das luzes,
sê duro como o ferro numa fundição
sê como nenhuma palavra em toda a linguagem,
sê como coisa alguma em alguma coisa.
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