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"Nasci pela Ingazeiras/ Criado no ôco do mundo./ Meus sonhos descendo ladeiras,/ Varando cancelas,/Abrindo porteiras./ Sem ter o espanto da morte/ Nem do ronco do trovão,/ O sul, a sorte, a estrada me seduz./ É ouro, é pó, é ouro em pó que reluz/ É ouro em pó, é ouro em pó./ É ouro em pó que reluz:/ O sul, a sorte, a estrada me seduz"

- Ednardo



domingo, 9 de maio de 2010

pequena história das duas décadas - IV

a primeira vez para ela
foi em um celular,
a luz do aparelho era azul,
mas daquele dia em diante
era o verde.
cairá o quarto na lembrança, o chão: eu.

e foi no chão de um quarto
a segunda que escrevi,
era um lápis no borrão.
eu lembro, catavento.
cama, cama-vento: ela.

hoje correm as páginas e entrelinhas
e sabem o mundo
em qualquer palmo de terra
onde haja vida –
independente dela, de mim,
e, principalmente,
de nós dois.

vou
carregando a minha aldeia
cantando em carrocerias
andando em ruas antigas.

tudo isso para descobrir
rindo
que caminho e caminhei sempre sobre seus olhos,
Terra tão verde.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

pequena história das duas décadas - III



depois de fulana
vieram outras, outras tão lindas.
tão lindas que me queimam o peito,
golpe do passado,
falta ar.

desfaleço no quarto,
e é um grande cômodo francês
ou o miserável de raskólnikov,
e caio ao chão
beijado pelo coice da vida.
alguém corra para olhar seu pulso!

afogando-me menos em sangue
que nas lembranças delas,
eu fico largado num canto
usando a cadeira como apoio
em busca do sopro perdido.

tinha cabelos cacheados,
lindos loiros cacheados
como raios de sol comprimidos.
leu meus primeiros poemas
que escrevi com essa intenção,
mas nunca soube,
eu nunca contei,
que eram todos para ela –
não deixe de dizer isso.
e peça desculpas, peça,
pela conversa que ousei,
mas nunca tivemos.
ficou melhor assim.

era o começo da vida em outra cidade
e vieram outras, outras tão belas
que meu peito borbulha em festa –
aniversário ou velório.

mas houve, principalmente,
as que não soube,
as que não lembro,
as que não souberam.
nunca me dei bem com as palavras –
e essa é uma daquelas boas ironias.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

pequena história das duas décadas- II

o primeiro foi maquiavel.
também li algo de rousseau, voltaire,
mas enganei poucos com nietzsche.
eu me queria o príncipe,
ou um revolucionário francês.

comecei a ler menos por vontade
que por gostar de fulana –
se quem ela amava lia,
eu também deveria.

mas eu gostava, josé,
eu gostava.
a única pedra em meu sapato
era a ausência,
o chão logo depois do salto,
arco tocando cordas de vento.

e pensar que ela vivia comigo...
pensar que ela me explicava coisas
que nem sequer sabia sentir.

a pedra, no sapato, jogou-se
do pé para o caminho
e saiu pulando pelo calçamento.
os versos ricochetearam nas paredes
e no sino da igreja.
um deles me perfurou o peito.

durante dois segundos fiquei em silêncio
me esvaindo em sentimentos
e visões de antes.
as nuvens passavam rápidas
e tudo ficava distante,
lento e distante.
era a morte?

foi quando.
entraram no peito duas folhas de uma árvore,
dois olhares de uma mulher,
e duas gotas do suor de um roceiro.
dentro, se fez o cimento
e cavou-se o alicerce
onde vou levantando a mim
com os tijolos que consigo queimar
no meio-dia do sol.

foi assim que a poesia entrou nele uma segunda vez,
e é por isso que sua rubrica tem dois pontos –
é o que conta o mito.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

pequena história das duas décadas - I

onde se dizem algumas verdades sobre a vida e ainda algumas trivialidades bestas sobre o poeta e a natureza da poesia, e aí eu duvido muito que alguém se interesse

o escritório tinha paredes cascarentas
e cortei-me várias vezes.
sobre o bureau, papéis, pedras, canetas,
meus braços lendo o livro.

então um livro poderia ser assim,
não falar de répteis, tabuadas?
que é isso que se faz com as palavras?
a última de uma linha
a linha de uma última
se fecham em som, em voz
e surpresa.

vou-me imitando isso
e a professora diz um nome:
“poesia”.
poesia, poesia...
vou repetindo até chegar em casa,
passando por terrenos baldios
e a rua onde seria o cabeleireiro.
poesia, poesia...
baldeiam terrenos com cabelos verdes
por entre o barro vermelho das doze horas
e as casas, casas ainda não feitas,
que escalariam cada palmo do ar
quando eu já me fosse menos novo.
poesia? poesia?

as belas meninas da escola
sabiam o que era “poesia, poesia...”,
mas não era a mesma coisa
para mim e para elas.
semiótica (só em dois mil e oito):
riso é pena ou “gostar”?
eu não amava, eu “gostava”
de fulana, sicrana...

menos cedo,
eu saberia a matéria cheirosa
de que é feito o amor –
fogo de beber com as mãos.
meu coração é meus rins
e o peito, menino, sorri.
passo exalando amor pelas mercearias,
fino vapor verde.

domingo, 2 de maio de 2010

o aniversário

Eu,
o tempo curvou-me a coluna,
o tempo fez-me curvo,
curva sinuosa,
perigosa?

Eu,
o tempo fez-me "Eu",
o tempo fez-me tal sou;
E se "Eu", e se Sou,
não devo nada ao nada.

A vida fez-me Ser,
"Ser" maiúsculo,
"Ser" verbo,
Ser humano.

2006

segunda-feira, 26 de abril de 2010

anedota libertária

intelectual,
passou a vida toda vida tentando
definir "liberdade".
livros, música, drogas, surf
cabelos brancos.

um dia desistiu.
levantou-se do banco
e flanou sob os ipês.
deu o sinal
e foi contando postes
até chegar em casa.

quando se soube derrotado,
felicidade cantando,
foi que definira
a liberdade.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

madrugada

V

que posso eu contra o mundo,
se só possuo palavras e dois olhos?
que posso eu contra o mundo,
se só me possuem palavras e passos?

vou chutando latas
e chuto meu olhar com elas,
mas a cabeça cá fica.
e chutando latas
também chuto os ponteiros -
ou são eles que me chutam
viela a dentro, vida afora.

folhas, anonimamente...

que posso eu contra o mundo?
dizer, posso dizer.

e dizendo pelas ruas,
ver que de tantas palavras,
ver que de tanta verdade,
a madrugada cai em si:
parafuso na madeira.

vindo,
esse tempo de palavras abertas
como o colo sombreado das árvores.

a madrugada fica como um quadro
que só ando
quando acho
que o eu em mim
não é.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

sexta corda




"falo da vida do povo: nada de velho, ou de novo"

nosso velho violão preto
na praça da gentilândia:
notas de vinho, canções embreagados
nós embreagadas elas.

somos quatro marginais
sentados em chão e banco verde
tomando um garrafão violado
aos gritos
somos quatro marginais.

sobra noite
e o palmo que resta
é sombra,
árvores. sóis são faróis,
faróis são gente

mente quem diz que o dia
só é dia de manhã,
há muitos sóis-gente
caminhando de vermelho e linho e grisalho,
e diapasão, e voz, e cigarro e
babi guedes.

nosso velho violão, bicentenário
quase,
sem a sexta corda,
mas pra que corda
se há babi?

o que falta, a medida que sobra,
é respeito a essa gente-babi
caminhando genial pelas ruas.

sobra poeira nos olhos.

"alegria do povo é sambar e sonhar"

Caiu a folha

quarta-feira, 14 de abril de 2010

sob a tarde cinza

o que há de nobre em mim
é essa loucura de borboletas
arfando em revoada verde
dos casulos sóbrios.

terça-feira, 13 de abril de 2010