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"Nasci pela Ingazeiras/ Criado no ôco do mundo./ Meus sonhos descendo ladeiras,/ Varando cancelas,/Abrindo porteiras./ Sem ter o espanto da morte/ Nem do ronco do trovão,/ O sul, a sorte, a estrada me seduz./ É ouro, é pó, é ouro em pó que reluz/ É ouro em pó, é ouro em pó./ É ouro em pó que reluz:/ O sul, a sorte, a estrada me seduz"

- Ednardo



quarta-feira, 14 de abril de 2010

sob a tarde cinza

o que há de nobre em mim
é essa loucura de borboletas
arfando em revoada verde
dos casulos sóbrios.

terça-feira, 13 de abril de 2010

quarta-feira, 31 de março de 2010

satanás

velho branco viajando de longe,
mascate mouro de barba arruivada,
olhos puxados, lábios grossos,
bate na porta de casa,
sorri honestamente um copo d'água.
Cheira à canela.

segunda-feira, 29 de março de 2010

um mito




II

Eu tenho uma alegria
e ela pode muito bem caber
nesse alpendre improvisado
nessa cadeira de ferro
nesse copo de cerveja.

E é sempre bom lembrar
que um copo alegre
está cheio de mar.

Eu tenho uma alegria,
jangadeiro!
Estoura rojão na praia.
Eu tenho um rojão,
jangadeiro!
Estouro de alegria não basta.

Chuva tece sombras na areia.
A noite cai em gotas
ao som do mar
e à não-luz do céu profundo.
A noite cai dentro dentro de outra noite
maior que outra noite noite,
baú de sóis em férias.

Tanto de cerveja na praia!,
marinheiro,
um menino vem buscar.

Triste alegria,
ó quão dessemelhante!

Caio de costas,
dou de ombros e pulmões à olhos
por outra cerveja,
ma-ri-nhei-ro.

Largo o chapéu e o paletó de linho branco,
cascas felizes,
e entro no mar.

Quem me ensinou a nadar,
Quem me ensinou a nadar,
Foi, jangadeiro, foi, jangadeiro,
Foi nossa mãe Iemanjá!

Eu tenho uma alegria!
As ondas respondem
“xiiii!”
Eu tenho uma alegria...
As ondas escondem,
tem pena de mim.

Marinheiro...

Eu tive uma alegria,
onça pintada no dia.
Eu tive uma alegria,
as coxas moldura da mão.
Eu tive uma alegria,
levanto, dinheiro é facão.

Ai, quando vim da minha terra
despedido da bataia
eu entrei na capital
numa indústria de maia
lá tinha mais um “Patrão”
e vivi pela navaiaiaia.

Escorro entre tropeços e quedas
até o telefone público.
Burguesia, viaturas espreitam-me.
Se segura, malandro,
pra ganhar esse otário tem hora.
Chapéu na cabeça.

A alegria morreu,
o que será de mim?
Manda buscar outra, Maninha,
lá no Piauí.

Ir para Bachianas Brasileiras nº4 - Prelúdio

um mito




I

Tenho uma alegria,
mas não sei qual, nem sei porque.

Se tenho felicidade em mim,
bicho perto de sumir,
vou descendo a ladeira
e sorrio meu melhor chapéu.

Felicidade é onça pintada na rua,
meu chapa:
pode ser que te enriqueça,
pode ser que te devore.
E onça é bicho ligeiro:
corre para longe,
ou vai pegando em cada mão
e felicitando o novo dano
(leva qualquer dos dedos
compra um pedaço d’alma).

Tenho uma alegria
e vou flanando pela rua
por entre casas bares y calles,
coxas coches e cochos.

Dá-me o dom do cantar,
marinheiro,
que eu te ensino a navegar!
Faça o som do flanar
brasileiro
que eu te ensino a versejar!

Retiro o azulejo com cuidado –
não sem nenhuma dor, faca de ponta –
e vou encaixando nas fachadas
corroídas por silenciosa guerra,
descaso.
Meu sorriso fica
nas paredes dos sobrados,
vou correndo atrás dela
e sobram meus rastros.

Havia um céu,
havia um chão...
A via e desconhecia outros
fenômenos naturais bestas
de mais dia menos dia:
zero,
mas fica a felicidade pendendo
para baixo.

Vestido azulejado,
cabeleira voando: “avia!, batuqueiro”.
Sorri por entre vielas velhas e velas
de um velório qualquer
dia desses

Quando eu morrer
eu quero coro e guerra,
quero uma estátua amarela
e praça com o nome dela.

A parede te veste bem, morena.
Teus braços são moldura, meu preto.
Suspiro é paixão ou cansaço, minha nêga?
É cansaço depois da paixão, ligeiro!

Não. Sim. Sobrado abandonado. Sobram beijos, mulato. Meu nome é “Sempre que Quiseres”. Não. Sim. Sim. Na rua perto do porto. Litro de cachaça. Vestido é para tirar pela cabeça. O amarelo tatuou os cabelos. Cama é para ranger. Paixão é para queimar em fogo vivo, vivo!, vivo!, vivo!. Frevo. Sim, Sim!, Sim!, Sim!. Fervo.

Suspiro. Moldura do suspiro, rosto. Moldura do rosto, seio. Moldura do corpo, cama. Moldura da cama, trama. Moldura da trama: São Luís, Fortaleza, Recife...

Chove.
Ela corre para um lado
e eu lado para um corro...
Corrimão no seu corpo,
fio amarelo de gemidos.

sexta-feira, 19 de março de 2010

!


a chuva é exclamação
por natureza:
da altura que lhe tinha
deixa uma vereda saudosa,
cicatriz úmida.

são os céus que têm olhos,
diz a gota que passa.
são os céus que têm boca,
gota passageira de outra
gota
gota
gota

rouca é a voz do céu
diz meu ouvido que
ouça...
é o despir-se da roupa
(antes, descem vestidas
naquele som ligeiro
de palavra não dita
ainda).

quando chegam, a porta aberta,
sorriem satisfeitas para o amado:
do corpo nu vê-se a alma.
e se completam em som, espanto e sexo.

sábado, 6 de março de 2010

madrugada

IV

acordo com um pressentimento,
uma metáfora que berra
com ferro madeira cimento:
bancos são as ancas da terra.

quarta-feira, 3 de março de 2010

madrugada

III

Folhas,
folhas que caem amarelas
por entre postes caolhos
e neons adormecendo.

Levanto.
É ela que levanta vôo na praça,
e corro – menino inventando brinquedos.
Fazemos um bailado,
ela gira, gira, gira
o vestido de ar e folhas.
Ponho a mão na cintura verde,
mas ela foge, corre para baixo das árvores
a girar, a girar
e ganha corpo.

Observa-me por entre poeira e jornal.
Baús com palavras não ditas.
Travesseiros que voam sós.
Cabelos que saciam sede.
Relógios que se enganam de propósito.

E eu tropeço no meu próprio sonho.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

madrugada


II

Passo.
Por que “passo” parece “passado”?
Paro.
Dou um passo e o passo é passado.
Ajoelho-me na calçada e procuro:
Não há vestígios do meu passo.
Passo pesado. Revejo:
Não há vestígios do meu passo.
Não há dúvida, passo é passado.

Quando ando, deixo um pé de lembrança.
O outro que foi também será passado
Pelo mesmo passo que ficou de lembrança –
Confuso.
Como o passo que darei ainda será já passado?

Desço a calçada e piso na areia.
Passa um riso no meu rosto:
É que ficou meu passo no chão,
Assim, passado.
Eu o observo com carinho,
Um pequeno sinal meu na madrugada.

Mas essa marca é tão tímida:
Passo a mão no passo,
Fica o risco dos dedos.
Sentado na calçada, brinco com a areia.
Então eu posso deixar-me no mundo?
Então eu posso ser hora tênis, hora mão?
Hora: uma hora, vento frio.
Ora, quede o namoro de meus dedos com o pé?
Quede os minutos que dediquei aqui?
Quede o investimento em sonho e tempo?

O que deixo de mim no mundo?
Deixo pequenas coisas que mudarão:
Constelações de utopia nascendo,
Arquiteturas de paixões antigas,
Serenos das nuvens do pensamento.

Mas os poemas não são passos,
Nem sou eu um passo,
Nem é minha vida um passo,
Apesar de passageira.
O que deixo é o que sou
E o que eu quero ser.

O que deixo é o que o mundo não é
Mais
O que deixo é o que o mundo não é
Ainda
Que passe que vá meu nome

Fica a camada de mudança
Que vivi em palavras, abraços
E folhas amarelas que caem
Anonimamente.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

madrugada

I

Hoje, resolvi caminhar pelas ruas
Só.

Vesti uma camisa qualquer com qualquer calça;
Mas não eram quaisquer retalhos,
Eram pedaços de sonho,
Sonho inteiro,
Que cobriam os rasgões da roupa.
Cubro meus pés com tênis,
Como se fosse sair.
E saio.

É madrugada e faz frio,
O que é um milagre por si
Só.

A rua não cabe na rua quando a noite é maior:
Se não passam carros, motos, gente,
Que diferença há entre a calçada e a rua?
Não falo das árvores, da pele do chão, das paredes,
Das listras...
Falo de falarem os veículos e os pés.
Mas se passo, se estou na rua
(outra rua, sentido maior. Rua: o que não é casa),
A rua é rua, a calçada é calçada.
Eu tenho o poder de definir as coisas,
De dizer “É” –
Mesmo alta a madrugada;

Mas também quero desdefinir...
Quero dizer que o céu não é o céu:
É um quadro onde desenho com os dedos,
Ou uma noite estrelada de Van Gogh.
Já disse também que o céu é o corpo dela
De sinais brilhando como estrelas.
O céu não é o céu: são as bochechas, olhos e boca
Do universo.
Mas como pode o céu cheirar a saudade?
Saudade da infância no sítio,
Saudade de tu e de mim em janelas à noite, celular.
Isso tudo me faz pensar que o universo
Tem também um nariz: o meu, hoje.

E, pensando, nem me dei conta que estive parado.
Estive parado numa calçada. Latem cães.
Tremem de frio estrelas.